Sobre as luzes (das emoções)
Era muita gente. Muita gente mesmo. De todos tipos: gente que cuspia fogo, gente tatuada dos pés à cabeça, que girava malabares no ar dançando numa espécie de transe, que fechava os olhos e flutuava, gente que hipnotizava os outros, que se contorcia e convidava mais gente para compartilhar uma espécie de ritual místico… Eu ria muito por dentro, me sentia num mundo à parte que muitas pessoas nunca conheceriam de verdade.
Era tudo colorido. E tudo brilhava no escuro. As luzes entravam em mim pelos meus olhos e invadiam cada parte do meu corpo. Na verdade eu ainda estava inquieta, procurando um rosto conhecido – mas quase esquecido – no meio daquela confusão gostosa de imagens.
Os últimos meses tinham me manipulado – o tempo tinha me manipulado. A minha vida não era mais minha, pertencia à apatia da simples existência, e eu só tinha percebido isso quando tudo se aproximava de um ápice. Então recebi uma ligação de alguém de muito, muito longe, que me implorava, que precisava me ver e compartilhar experiências comigo. E agora?, eu pensei. Quatro dias depois eu me sentava ao lado de gente estranha (e de alguém que eu conseguira arrastar comigo) com o coração acelerado, sem ter noção alguma do que iria ser das próximas horas.
Eu dançava. Muito. Não me importavam os outros. Mas os cantos dos meus olhos continuavam atentos.
Lembro de ter virado a cabeça rapidamente. Alguém estava a alguns metros mais adiante, encostado numa pilastra. Virei a cabeça novamente. Ele me olhava. E sorria. E eu saí correndo e me joguei num abraço apertadíssimo, que durou horas e congelou o tempo. Tínhamos a noite toda…
Era muita luz. Por todos os cantos. As coisas brilhavam, e algumas pessoas também. Eu lembro da luz verde, que me radiografava e que me deixava tocá-la. E naquele transe que ela me proporcionava, aquela admiração nostálgica, eu percebi que tudo era meu. O tempo era meu. A vida era minha. As escolhas eram minhas. A suspensão eterna daqueles segundos também.
Os movimentos dele me hipnotizavam; ele simplesmente jogava a música para mim. Eu já não mantinha nenhuma barreira à minha volta, então deixava a música entrar e invadir qualquer canto. Ainda lembro dos olhos dele nos meus. E da luz que nos abraçava.
Tudo estava bem
(fim)
















