A lembrança é meio vaga. Naquele momento, tive a impressão de que todas as pessoas do mundo corriam para o mesmo lugar. E para vários lugares.
Eu só conseguia enxergar vultos deslocando-se apressadamente, gritos, lamentos e orações desesperados, corpos violentamente abrindo caminho no meio de todo tipo de ser humano. Uma tentativa de fuga tumultuada e sem rumo, onde priorizava-se o inconsequente instinto de sobrevivência, simplesmente inutilizável.
De alguma forma, me senti imersa em tranquilidade e em pensamentos nostálgicos anestesiantes. Facilmente ultrapassei aquele mar de arrependimentos, incredualidade e pregações místicas, e foi com prazer que avistei o pico do Skydive, com seu seus gramados verde oliva aveludados enchendo meus olhos de sorrisos.
[ O Skydive tinha sempre sido meu lugar preferido. Defronte para o oceano e beirando o universo no céu acima, o ar no pico exalava um cheiro de liberdade e vida marinha. Com exceção dos dias festivos oficiais e do intervalo nas universidades - que enchiam as sombras das árvores do pico com pessoas barulhentas, copos descartáveis e pontas de cigarro mal apagadas - era ali na beira do precipício mais alto e mais aconchegante da cidade que eu realmente me sentia completamente em paz. ]
Já era possível observar a concentração de luz pulsando no horizonte, em parte mergulhada na água azul. Mas era impossível deixar de me incomodar com a média aglomeração de weirdos vestidos como alienígenas, pecadores prostrados na grama com as mãos erguidas em redenção, curiosos, conformados e esperançosos.
Enquanto eu observava atenciosamente as mudanças de cor e o significável crescimento daquela luz pulsante, dedos macios seguraram
firmemente a minha mão. [ Estava ali do meu lado uma das poucas pessoas com quem eu gostaria de compartilhar aquele momento ]
No horizonte oposto o céu apagava os últimos rastros do sol. A energia daquela “coisa” irreconhecível alguns quilômetros à frente começava a formigar na pele do meu rosto. Eu meio que previ: por dois ou três segundos aquela bola incandescente de ondas coloridas se apagou, nos segundos seguintes o ar e o chão tremeram e juro que cheguei a ouvir um assobio grave, profundo e metálico.
Me lembro de não ouvir mais grito algum, nenhum clamor dramático angustiado. Ninguém se movia.
Lembro de sentir aquilo tudo dentro de mim e de apertar com força a mão ao meu lado. Lembro que aquela bola de luz avançava fervorosamente pelo mar em nossa direção, agitando as águas antes calmas, enquanto eu fechava os olhos e tentava trazer à mente alguma música épica. Acho que uma lágrima chegou a percorrer minha face, mas do segundo seguinte não me recordo mais.
