Arquivo | maio, 2008

Insustentável.

24 maio

Num segundo eu devanesço, tão leve que quase não existo

me arrisco a não ser… e é não sendo que a vida transborda entre meus dedos, macia e doce.

Gosto da vida doce, mastigável feito bala de goma, nostálgica feito um caminhar de outono. Vida que é vida sem esforço, sem trancos, sem pausa. Vida que flui.

Não me agrada a vida com gosto de água, insípida, fria. Do tipo que nos atravessa. Está lá, mas ao mesmo tempo é invisível. É escorregadia.

eu gosto de opostos.

gosto de fechar os olhos e morrer por alguns segundos, sem ouvir nada, sem sentir nada.

Só vivendo.

The white-coloured boy.

22 maio

It was cold and windy that night, when she was walking on the beach, thoughtless.

Survinving became harder than ever those days. Even breathing was difficult: she could not fight against the cold anymore.

As she glanced at the forest, something moved among the trees. She would not dare to get closed to the forest, it was such a danger! But the figure came closer and closer, and she was petrified.

She realised it was a boy, and he was white-coloured. He stood right in front of her. She looked at him and could see the ocean through his eyes.

They stayed impassive, gazing to eachother, when the white boy held on to her left hand, then hugged her. She felt a sudden warm and comfort; night wasn’t cold anymore and she realised she wasn’t completely alone. The white boy and the little girl standed like this for two days. At the twilight of the second day, the white boy gave a last deep look at the little girl, and went into the sea.

She thought she could see him sinking.

Deep inside, the little girl knew he would always be there. She had a part of him in her heart now, wich would keep her warm.

She spent several years looking down to the ocean. But she had no need to wait for anything… he was inside her and they were sticked together

f o r e v e r

A percepção aguda do previsto imprevisto.

22 maio

nada fala, nada se move, nada pulsa
nesse mundo congelado, parado no tempo*
onde tudo agora flutua levemente, e somente as fitas coloridas que, de outra forma, penderiam na sua mão, são fustigadas pelo vento.
onde milhões de janelas se abriram ali no meio do nada, revelando outros milhões de mundos coloridos e ativos
e
conectados
por fitas
azuis*

e a neve que era fria se torna morna, o vermelho perigoso talvez seja azul, as águas do mar não se movem (por enquanto), e os cacos de espelhos não cortam e espinhos nao furam…
tudo flutuando num tempo que não nos pertence (deixemo-los livres agora)*

22 maio

J’ai su défendre mes valeurs
Pour m’assumer,
j’ai fait la guerre
À ma manière
La foi
Ça vient, ça va
Le diable en moi
A fait son œuvre.
J’ai dérouillé
J’ai déraillé,
Et avalé
Quelques couleuvres.
Depuis
Je n’ai commis
Qu’un seul délit,
Celui de faire
Chanter mes jours
Et mes amours

À ma manière.

charles aznavour dando uma de edith piaf.

10 maio

      A morte é uma coisa um tanto quanto peculiar na minha vida, já me causou sérios problemas, perdas, desilusões, depressões, até chegar num ponto de desapego à vida. Como o tempo passa e mudamos todos os dias, essa era ‘obscura’ passou. Passou, mas de certa forma continua presente, com reflexões, com espiadas atrás de espelhos, com seres susurrando às minha costas, com teorias… alguns aspectos da minha personalidade foram, ao longo dos anos, sendo definidos por ela (muitos envolvem aquela coisa de ‘viva-a-vida-intensamente-etc’, esse discurso que já conhecemos; outros envolvem escolhas; outros envolvem a maneira como vejo a vida e como eu a vivo). 

      Eu dou bastante valor ao passado e ao presente e ao futuro, ao mesmo tempo. Vivo esse três tempos de uma vez. Já me disseram por vezes que o que importa mesmo é o presente, que o que passou passou e temos que viver mesmo o agora, e que ficar pensando no futuro só traz complicação. Eu acho que isso pode servir pra algumas pessoas. Não serve pra mim. Recordar e viver coisas que já passaram pela minha vida me traz uma espécie de alegria e conforto nostálgicos. Tudo o que já vivi continua fazendo parte de mim, e ignorar ou abandonar isso seria como retirar um pedaço do meu corpo e da minha mente, e deixá-los para trás. Isso não existe.

      Não vou abrir a parte de futuro contigo, porque envolve algumas idéias que nem todo mundo concorda nem entende o porquê, e também você poderia dizer que é tudo sonho, ou plano, ou desejo, quando na verdade não é, e essa parte eu não vou explicar =)

10 maio

e eis que está vazio.
eis que estamos ali com um olhar vago à procura de uma flor que propositalmente tornou-se transparente.
eis que o vento do inverno insiste em nos amedrontar. açoita nossos membros e nossas faces, cortando-as.
anoitece. eles voltaram? não não, desvie os olhos.
eis que são sussurros.
eis que- Ei, a amarela onde está???- elas correm.
e correm azuis e vermelhos, correm brancos, cinzas, correm cartolas, bengalas, peles nuas, cabelos, espelhos, reflexos,
e aguardam todos com olhos inquietos a sombra distante que pode trancar a todos na floresta.
e eis que ela tateia o escuro, procurando
e eis que não sabemos.

Ω

9 maio

          Nos agarramos a certezas vis, formadas através de imagens puras refletidas nos projetos do nosso futuro. O tempo nos corrói, atravesa as janelas, as pessoas, as chuvas que nos regeneram e se engancha na pele, penetra fundo e não solta.  A correnteza arrasta os pensamentos e os joga (indiferentemente) em escuros abismos.

 

e não há volta: só nos resta os braços macios da morte.