Arquivo | julho, 2008

All neon like…

18 jul

Sobre as luzes (das emoções)

Era muita gente. Muita gente mesmo. De todos tipos: gente que cuspia fogo, gente tatuada dos pés à cabeça, que girava malabares no ar dançando numa espécie de transe, que fechava os olhos e flutuava, gente que hipnotizava os outros, que se contorcia e convidava mais gente para compartilhar uma espécie de ritual místico… Eu ria muito por dentro, me sentia num mundo à parte que muitas pessoas nunca conheceriam de verdade.

Era tudo colorido. E tudo brilhava no escuro. As luzes entravam em mim pelos meus olhos e invadiam cada parte do meu corpo. Na verdade eu ainda estava inquieta, procurando um rosto conhecido – mas quase esquecido – no meio daquela confusão gostosa de imagens.

Os últimos meses tinham me manipulado – o tempo tinha me manipulado. A minha vida não era mais minha, pertencia à apatia da simples existência, e eu só tinha percebido isso quando tudo se aproximava de um ápice. Então recebi uma ligação de alguém de muito, muito longe, que me implorava, que precisava me ver e compartilhar experiências comigo. E agora?, eu pensei. Quatro dias depois eu me sentava ao lado de gente estranha (e de alguém que eu conseguira arrastar comigo) com o coração acelerado, sem ter noção alguma do que iria ser das próximas horas.

Eu dançava. Muito. Não me importavam os outros. Mas os cantos dos meus olhos continuavam atentos.

Lembro de ter virado a cabeça rapidamente. Alguém estava a alguns metros mais adiante, encostado numa pilastra. Virei a cabeça novamente. Ele me olhava. E sorria. E eu saí correndo e me joguei num abraço apertadíssimo, que durou horas e congelou o tempo. Tínhamos a noite toda…

Era muita luz. Por todos os cantos. As coisas brilhavam, e algumas pessoas também. Eu lembro da luz verde, que me radiografava e que me deixava tocá-la. E naquele transe que ela me proporcionava, aquela admiração nostálgica, eu percebi que tudo era meu. O tempo era meu. A vida era minha. As escolhas eram minhas. A suspensão eterna daqueles segundos também.

Os movimentos dele me hipnotizavam; ele simplesmente jogava a música para mim. Eu já não mantinha nenhuma barreira à minha volta, então deixava a música entrar e invadir qualquer canto. Ainda lembro dos olhos dele nos meus. E da luz que nos abraçava.

Tudo estava bem

(fim)

All neon like…

5 jul

Sobre os ventos (das sensações)

Imagens passavam borradas pelos meus olhos e o vento fustigava meus cabelos. Com a cabeça descansando na janela e o pensamento viajando bem longe, não foi tão difícil ignorar os resmungos da minha companhia. Aliás, com aqueles barulhos dentro da minha cabeça (que ouso chamar de música) muita coisa me era imperceptível, incluindo palavras direcionadas à mim.

Eu a compreendia: estávamos cansadas, famintas, enlameadas, suadas e muito, muito longe de casa. Pegando a estrada numa van com pessoas que conhecemos mais ou menos 17 horas antes.

Ela estava à beira de um colapso nervoso, agravado pela minha calma… afinal, a única possibilidade era esperar – enquanto atravessávamos de um estado para outro – e, finalmente, chegar em casa. De nada adiantava se irritar só porque as coisas não aconteceram como pensávamos. Já que estávamos ali, por que não aproveitar, curtir a viagem, saborear esse acontecimento especial e mágico de olhos fechados e se deixar mergulhar nas lembranças…

Os ruídos do vento no meu ouvido criavam melodias, que eram o personagem prinicipal dos meus pensamentos. Nada mais me importava; eu tinha alcançado meu objetivo. O que mais me alfinetava era a saudade imensa de tudo: das luzes, da música, da noite escura, da magia… das pessoas. Aquele sol de fim de tarde há muito me incomodava, invadia o meu corpo e os meus olhos contra a minha vontade e me deixava extremamente melancólica…

(parte dois)

All neon like…

3 jul

Sobre as águas (do pensamento)

Anoitecia.

Voltei para casa.

Sentei no chão do box, com a água morna do chuveiro caindo continuamente na minha cabeça e escorrendo pelo meu rosto. Abracei meus joelhos e fechei os olhos. Aquele som pulsante continuava dentro dos meus ouvidos, mas eu não fazia realmente questão que eles me deixassem. Não me vinha nada à mente- acho que nem com algum esforço eu conseguiria pensar ou me concentrar em alguma coisa por mais de alguns segundos…

Fui suspensa da realidade. Me vesti e passeei pelo apartamento durante alguns minutos, mas nenhum canto satisfazia a minha inquietação. Alguma coisa precisava ser preenchida, ao mesmo tempo em que eu transbordava.

Transbordei tanto, a ponto de me lagar numa poltrona e deixar lágrimas escorrerem e caírem no meu colo. Não de tristeza mas de êxtase, de descrença e saudade, de nostalgia. Aquela loucura toda, não-planejada, vivida ha algumas horas, tinha realmente mudado os passos seguintes dos meus dias.

(parte um)