Arquivo | agosto, 2008

Catador de sonhos

7 ago

O sol declina no céu e projeta no asfalto quente a sombra de uma figura esguia. Gotas de suor escorrem insistentemente num rosto marcado pela dureza e cansaço. As costas ossudas são encurvadas e as mãos ásperas e calejadas arrastam consigo uma enorme estrutura de madeira; é mais um fim de dia para alguém que recolhe o seu sustento nas ruas.

Aurélio tem os olhos atentos: aqui e ali ele encontra pedaços de papelão, latas de alumínio, algumas garrafas de vidro. Na carroça tem até banco de plástico e carcaça de televisão – os troféus do dia. E se tiver sorte, ele recolhe, jogado em algum mato, um carrinho quebrado qualquer para presentear um dos quatro filhos. “Anderson, Vitor, Anakelly e Laura, essa aqui”, diz ele, tirando uma menina do meio de caixas de papelão amassadas. “Eu a trago comigo muitas vezes, pra não dar trabalho em casa”.

Segurando a criança no colo, o homem de feições duras viaja doze anos no tempo. Antes de se tornar catador, Aurélio Santos Gomes realizava pequenos reparos em encanamentos e serviços de pedreiro. Nos três anos seguintes houve pouquíssima oferta de clientes, deixando-o praticamente desempregado e dependente da mulher, Inês, que fazia e vendia doces e salgados.

Com o nascimento de Vitor e Anderson – com três anos na época – para criar, Inês deixou seu negócio de lado e passou a dedicar-se à casa e aos filhos. Aurélio, então, construiu sua carroça e passou a acordar às cinco da manhã para percorrer as ruas da cidade. Alguns anos depois Laura nascia, e há apenas 10 meses Anakelly juntou-se à família.

Lelinho, como é chamado pela esposa, vê dia após dia passar sem mudanças. “Recolho o material, estoco lá em casa em uns sacos e vendo. Todo dia é sempre igual. Acordo cedo, antes de todo mundo, pego minha carroça e saio pelas ruas. Muitas vezes só chego em casa depois do anoitecer. Mas, pelo menos, não tem nenhum lugar que eu não conheça nessa cidade, andei por tudo”, comenta, aparentemente orgulhoso.

Ele senta na calçada com a filha ao lado e prossegue: “O que é muito ruim é o preconceito. As pessoas atravessam a rua para não cruzarem comigo, sentem nojo ao me ver revirando latas e sacolas de lixo. Eu não tenho nojo, é o meu trabalho, o meu sustento. Engraçado né, os outros que jogam as coisas deles fora e eu não tenho vergonha nem nojo de ir lá e pegar. Tem gente que me chama de gari, de catador de lixo… O catador recolhe materiais recicláveis, aquilo que pode ser reaproveitado. O lixo é o lixo. Não é a mesma coisa!”.

Sem maiores perspectivas de vida, o que mais lhe agrada são as raras vezes em que dorme até um pouco mais tarde e as partidas de futebol assistidas com os amigos em algum bar. “É a vida, sabe. Tem que levar assim, devagar… não planejo muita coisa pro futuro não, até lá meu barraquinho pode ter desmoronado, pode acontecer alguma coisa comigo… Eu penso mais nas crianças, na formação delas. A Laurinha, essa eu queria que fosse enfermeira”. O pai dá uma leve sacudida no ombro da filha e seu olhar se torna distante.

Aurélio estudou até o quarto ano do ensino fundamental, e, vendo as reais condições da família, teme que os filhos não concluam os estudos. O primogênito, Anderson, já com 12 anos, foi reprovado duas vezes. Vitor também está na escola, mas às vezes “trabalha” nos sinais de trânsito pedindo dinheiro aos motoristas para ajudar nas despesas domésticas. Inês fica em casa com a pequena Anakelly.

Com a manga da camisa que pende em volta de seu pescoço, o catador enxuga o suor da testa e suspira. Ele olha o movimento de automóveis e pessoas ao redor, e se sente excluído, rejeitado. “É como se eu olhasse através de uma janela. Olhasse algo muito bom, mas muito simples ao mesmo tempo, e que me é negado.”

“Não se pode tocar nessas pessoas, e é por isso que eu acho que não faço parte. Nem nunca farei. Eu nem quero que meus filhos fiquem do outro lado da janela, senão eles se tornariam como essas pessoas aí. Eu quero é que eles não tenham que olhar através dela, como eu olho.”

Ao se levantar ele pega a menina no colo, colocando-a de volta na carroça, no meio dos papelões. As mãos calejadas encontram os puxadores de madeira, num esforço contínuo para movimentar toda a estrutura encardida. A expressão cansada torna a encobrir o rosto do catador e ele continua sua marcha no asfalto quente.

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