Arquivo | dezembro, 2008

É um tanto quanto agressivo, eu diria.

27 dez

Desregula batimentos cardíacos e coordenações motoras

Meus gestos desenham imagens desconexas no ar. Meus pés se agitam num compasso arrítmico, nervoso. Há muita gente ao meu redor, gente agitada e nervosa. Elas me deixam mais agitada e mais nervosa.
Para além dessa porta há muitas escadas.

E muitas portas. E passagens e corredores estreitos. E corredores largos. E mais gente.

E vazio. Há muita luz para além dessa porta, mas também há escuridão. Essas pessoas fazem barulho. Procuram objetos perdidos no meio de muitos outros objetos; fazem ajustes irresponsáveis de última hora. Também faço meus últimos ajustes, não tão irresponsáveis. Também faço barulho; estou histérica. Meus pertences estão todos espalhados.

Atravesso a porta, preciso de ar. Logo adiante há outra sala. Fechada  (mas sou curiosa) e

escura. Há uma janela na parede oposta. Atravesso o cômodo a passos delicados. Estou lá no alto e lá embaixo não está tão escuro. Mas está silencioso. Meus batimentos aceleram e dou meia-volta.

As pessoas naquele outro cômodo continuam com as vozes e os movimentos excitados.  Me deixam impaciente. Não quero ficar ali; rumo para as escadas. Está tudo muito silencioso e o silêncio me deixa arrepiada de ansiedade.

Mais portas. E escadas. Meus passos ecoam num barulho não tão abafado quanto eu gostaria.
Abro uma porta. Do outro lado o cômodo é imenso. E mergulhado no breu. Não ouço nada além de um ruído ensurdecedor. Vejo lábios se movendo. Há outras pessoas ali, mas não me interessa distingui-las. Vejo algumas luzes. Luzes muito quentes. Muito brilhantes.

Mais adiante há um corredor. Obviamente escuro. Na minha ansiedade, o atravesso a passos corridos; meu pés martelam o assoalho e meu rosto se comprime numa careta, escrevendo “que merda” na minha expressão.

Encontro pessoas vestidas mais ou menos como eu. Estão todas apreensivas.

Não, nem todas. Mas desejo bem no fundo todos apreensivos, nervosos, histéricos. Têm que se apavorar como eu.

Faltam segundos. Meu coração será arrancado do meu peito, pressinto. As pessoas parecidas comigo se dispersam; cada uma no seu lugar.

Não rezo. Minhas mãos se unem apertadas sobre meu tórax, sobre elas apóio meu queixo e cerro os olhos. Repito palavras desconexas. Cada vez mais rápido. No fundo, no fundo, sei que não adianta nada.

As luzes apagam. Me viro de costas e olho a garota à minha frente. Sem o olhar apavorado como o meu. Reprimo o impulso de correr.

Minha respiração é descoordenada. Lembre-se de sorrir, aquele sorriso congelado. Preferia manter os olhos fechados. Em êxtase.

Tudo começa ainda no escuro e tão de repente que sou surpreendida. As luzes acendem. Minha vontade, então, é de que nada termine. As luzem acendem. Há outra garota do lado oposto. Olhando na minha direção.

Meus lábios sorriem, respiro fundo e caminho o mais suavemente possível até ela.