Arquivo | abril, 2009

Como Vincent me conheceu

30 abr

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Garoava enquanto eu voltava para casa naquela noite. Depois da estação de metrô tão cheia de pernas, as ruazinhas solitárias e fracamente iluminadas me deixavam melancólica e pensativa. O toc-toc dos meus passos ecoava nas paredes antigas dos edifícios à minha volta, parando automaticamente em frente ao número 58.

Meu pai apelidou o apartamento de “tenda árabe”. Creio ter sido por causa dos tecidos indianos pendurados no teto da sala, da coleção de elefantinhos em cima de uma prateleira, espelhos de todos os tamanhos disputando o espaço das paredes com fotos, desenhos e cartas, tapetes desparelhos cobrindo o assoalho e ar impregnado de incenso de jasmim – minha mãe sempre insistia em dizer que eu respirava veneno.

Liguei o rádio e sentei num almofadão em frente à janela, com um pote de palmito nas mãos. A vista era privilegiada: colado ao meu nariz erguia-se um prédio de muitos andares e muitos apartamentos. Era ótimo ficar ali observando todos os tipos imagináveis de seres humanos; muitas vezes eu até captava conversas – ou fragmentos delas – brigas, gritos, choros e, vez ou outra, barulhos estranhos.

Um rapaz me chamou a atenção. Segurava uma taça de qualquer coisa, permanecia em pé no meio da sala e só pude vê-lo por que alguns fachos de luz solitários vindos da rua ousavam salpicar o interior daquela janela no décimo andar: todos os outros aposentos estavam imersos no breu. Me senti assistindo a um filme de suspense, enquando ele ia e vinha pelo cômodo, sempre tateando as paredes e agindo de uma forma um pouquinho suspeita.

O filme acabou se tornando entediante, sem iluminação não tinha graça alguma observar aquele cara.

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Toc, toc, toc, toc. O ar queimava a minha garganta enquanto eu voltava para casa em alguma outra noite, tentando enfiar as mãos o mais fundo possível nos bolsos do casaco. Virei uma esquina e foi a primeira coisa que vi: aquele cara andando e tateando as paredes, do outro lado da rua.

Pensei em voltar por outro caminho, morrendo de medo de um psicopata fatiador de pessoas. Aparentemente ele não tinha me percebido, então acelerei os passos no chão molhado. Depois disso foi tudo muito rápido.

Escorreguei, gritei e caí de costas na calçada com um baque surdo. Minha cabeça bateu forte no chão e, enquanto eu ouvia gritos de “O que houve?” e “Você está bem?”, visões de sequestro e diferentes métodos de tortura passavam pela minha mente. Eu não conseguia respirar, nem levantar e sair correndo, quando pés tropeçaram em mim e duas mãos me ajudaram a levantar.

Ele provavelmente tinha a minha idade, ou era uns dois, três anos mais velho. Ao contrário do homem esguio e estranho que eu imaginara, o rapaz era bonito e gentil, falava suavemente e, enquanto perguntava o que tinha acontecido ou se eu estava machucada, reparei que seus olhos azuis não olhavam diretamente para mim, mas fixamente para algum ponto às minhas costas.

Ele me acompanhou até a porta do meu prédio, exatamente oposto ao prédio dele. Aquele olhar fixo – ora no meu braço, ora em algo invisível atrás de mim – me incomodava. Conversamos por poucos minutos antes de nos despedirmos.

Consegui ouvir, pouco antes da porta de entrada fechar:

– Me chamo Vincent.

E, assistindo através do vidro embaçado do saguão a sua travessia irregular e descompassada até a porta do outro lado da rua, eu finalmente percebi que ele era cego.

Meu olhar sobre o mundo

25 abr

Essa ótima idéia foi emprestada do Michel, servindo como incentivo para sair por aí toda semana de câmera na mão procurando inspirações. Como na prática isso não acontecerá com tanta frequência, algumas fotos serão um pouco mais antigas.

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20 abr

– tô com muita vontade de rir.
– porquê?
– sei lá.. é tão estranho…
– o quê? você sentada aqui na cozinha tomando leite às 3 da manhã?
– é.

no dia em que decidi percorrer 2.000 km até o apartamento de um “desconhecido”.