Como Vincent me conheceu

30 abr

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Garoava enquanto eu voltava para casa naquela noite. Depois da estação de metrô tão cheia de pernas, as ruazinhas solitárias e fracamente iluminadas me deixavam melancólica e pensativa. O toc-toc dos meus passos ecoava nas paredes antigas dos edifícios à minha volta, parando automaticamente em frente ao número 58.

Meu pai apelidou o apartamento de “tenda árabe”. Creio ter sido por causa dos tecidos indianos pendurados no teto da sala, da coleção de elefantinhos em cima de uma prateleira, espelhos de todos os tamanhos disputando o espaço das paredes com fotos, desenhos e cartas, tapetes desparelhos cobrindo o assoalho e ar impregnado de incenso de jasmim – minha mãe sempre insistia em dizer que eu respirava veneno.

Liguei o rádio e sentei num almofadão em frente à janela, com um pote de palmito nas mãos. A vista era privilegiada: colado ao meu nariz erguia-se um prédio de muitos andares e muitos apartamentos. Era ótimo ficar ali observando todos os tipos imagináveis de seres humanos; muitas vezes eu até captava conversas – ou fragmentos delas – brigas, gritos, choros e, vez ou outra, barulhos estranhos.

Um rapaz me chamou a atenção. Segurava uma taça de qualquer coisa, permanecia em pé no meio da sala e só pude vê-lo por que alguns fachos de luz solitários vindos da rua ousavam salpicar o interior daquela janela no décimo andar: todos os outros aposentos estavam imersos no breu. Me senti assistindo a um filme de suspense, enquando ele ia e vinha pelo cômodo, sempre tateando as paredes e agindo de uma forma um pouquinho suspeita.

O filme acabou se tornando entediante, sem iluminação não tinha graça alguma observar aquele cara.

—————-

Toc, toc, toc, toc. O ar queimava a minha garganta enquanto eu voltava para casa em alguma outra noite, tentando enfiar as mãos o mais fundo possível nos bolsos do casaco. Virei uma esquina e foi a primeira coisa que vi: aquele cara andando e tateando as paredes, do outro lado da rua.

Pensei em voltar por outro caminho, morrendo de medo de um psicopata fatiador de pessoas. Aparentemente ele não tinha me percebido, então acelerei os passos no chão molhado. Depois disso foi tudo muito rápido.

Escorreguei, gritei e caí de costas na calçada com um baque surdo. Minha cabeça bateu forte no chão e, enquanto eu ouvia gritos de “O que houve?” e “Você está bem?”, visões de sequestro e diferentes métodos de tortura passavam pela minha mente. Eu não conseguia respirar, nem levantar e sair correndo, quando pés tropeçaram em mim e duas mãos me ajudaram a levantar.

Ele provavelmente tinha a minha idade, ou era uns dois, três anos mais velho. Ao contrário do homem esguio e estranho que eu imaginara, o rapaz era bonito e gentil, falava suavemente e, enquanto perguntava o que tinha acontecido ou se eu estava machucada, reparei que seus olhos azuis não olhavam diretamente para mim, mas fixamente para algum ponto às minhas costas.

Ele me acompanhou até a porta do meu prédio, exatamente oposto ao prédio dele. Aquele olhar fixo – ora no meu braço, ora em algo invisível atrás de mim – me incomodava. Conversamos por poucos minutos antes de nos despedirmos.

Consegui ouvir, pouco antes da porta de entrada fechar:

– Me chamo Vincent.

E, assistindo através do vidro embaçado do saguão a sua travessia irregular e descompassada até a porta do outro lado da rua, eu finalmente percebi que ele era cego.

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8 Respostas to “Como Vincent me conheceu”

  1. marcones abril 30, 2009 às 8:31 pm #

    muuuuuuuuuito massa, pow !
    =*

  2. ozanne abril 30, 2009 às 10:09 pm #

    FuTUrOOooO!!!

  3. Mônica maio 1, 2009 às 12:40 am #

    Ainnnn, adorei ! x)
    Coooomo eu sentaria em frente a uma janela com um frasco de palmito…^^

    Quero ver a continuação.
    =*

  4. João Paulo maio 1, 2009 às 1:03 am #

    Muito bom!!!
    gostei bastante…=)

  5. Cleide maio 1, 2009 às 9:11 am #

    Adorei a história!
    Essa garota vai longe.

  6. Michel maio 1, 2009 às 10:19 pm #

    Vc quer que eu use palavras simples ou sofisticadas? Usando palavras mais sofisticadas, me apetece bastante sua tecitura narrativa, tão cheia de nervuras e nuances a serem desvendadas, como um véu que cai revelando o rosto outrora oculto. Frases rápidas, cortantes, quase agudas, de uma sutileza quase pueril, a retratar uma realidade que de forma sutil foi vivida em parte em um momento qualquer de sua curta existência. Tênue como o aroma de uma bergamota que deixa escapar seus vapores aromáticos você termina sua narrativa,e eu, me calo.

  7. ricardo maio 2, 2009 às 11:00 pm #

    eu já disse tudo pra você, besta
    tá redondo nesse ponto aí…
    🙂

  8. Manuh das Oliveiras setembro 4, 2011 às 1:21 pm #

    muito bem escrito, fascinante!!
    =**

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