Arquivo | setembro, 2009

do peso e da leveza

30 set

Os raios do sol adentravam desautorizadamente o meu quarto quando senti (e ouvi) aquele zumbido diabólico em cima da mesa, ou na minha cama. Arrancada de um sono breve e precioso, condenando a luz do dia pela sua existência, desliguei o celular e me reacomodei entre travesseiros. Mais meia horinha, só.

Lá se foi meia hora, quarenta minutos, cinqüenta, uma hora e dez, e vinte, e trinta. Finalmente estou atrasada! Me arrasto em direção à vida, tão urgente mas que poderia esperar um pouquinho. Um insuficiente e pouco nutritivo copo de leite e chocolate me acompanhará por longas horas, enquanto corro lentamente contra o tempo, junto pertences e piso na rua.

Então o dia é coreografado: sol quente, ônibus atrasado, coisas demais em braços de menos, muitas pessoas, sacolejos intermináveis. Não preciso chegar na faculdade para descobrir que “a aula vai terminar em 10 minutos”. Aquele copo de leite parece ter sido ontem; com um incômodo no estômago sigo para outra aula. Durmo com os olhos abertos, devaneio sobre o futuro, o fim dos tempos, a tensão no Afeganistão, o preço de uma passagem aleatória para a Tailândia, o almoço na minha casa que eu não comerei, os livros que preciso ler, o sono que estou sentindo – a minha cama…

A sensação agradável de um banho já não me acompanha mais: foi substituída por um cheiro empoeirado, metálico e grudado de suor. Me impressiono com a quantidade de pessoas que pode se apertar num ônibus. Mais sacolejos.

Sorrisos no trabalho, sento à minha mesa. Queria deitar sobre ela e dormir bem uns 40 minutos, mas o telefone acaba de tocar. “Amark Marianne, boa tarde”. Atenderei novecentas e setenta e cinco ligações nas próximas horas e o risco de alguém querer falar diretamente comigo é de otimizados 3%.

Há cinco telefones e outros tantos celulares na minha área. Algumas vezes todos gostam de tocar ao mesmo tempo, o que me deixa com uma incontrolável vontade de atirar num deles ou tirá-los do gancho. Conto as horas, estrebuchando de fome e dor nas costas. A cada toque de telefone eu salto na cadeira, violentada.

Boa noite, até amanhã! (putz). Com sorte pego um ônibus rapidinho.

Dá uma tremenda preguiça trocar de roupa e realizar todo aquele ritual de tortura alongamentos. Requer sempre mais. Me deixa sem fôlego, dobrada ao meio com uma mão nas costas. Me faz grunhir quando erro e transcender quando acerto.

Não tem jeito: a cada démi plié e port de bras, grands battements e rétirés, eu esqueço dores, problemas, brigas e preocupações, fome, sono, o que será das próximas horas ou de amanhã, provas não estudadas, pendências e sofrimentos. Só existe eu, meus movimentos, o momento, a música e a dança.

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4 set

“As pessoas vivem suas vidas atadas, presas, apegadas ao que elas traduzem, aceitam como ‘correto’ e ‘verdadeiro’. Todo ser humando confia e está preso ao seu conhecimento e experiência de vida. E assim definem e chamam de realidade. Mas o que de fato significa ‘correto’ e ‘verdade’?

São apenas conceitos vagos, subjetivos e incertos… a realidade das pessoas pode não passar de uma miragem, de uma ilusão. Podemos considerar então que todas são simplesmente ingênuas por viverem em seu próprio mundo, moldadas, amarradas e cegas por suas próprias crenças”.

Atom Heart Mother

3 set

A lembrança é meio vaga. Naquele momento, tive a impressão de que todas as pessoas do mundo corriam para o mesmo lugar. E para vários lugares.

Eu só conseguia enxergar vultos deslocando-se apressadamente, gritos, lamentos e orações desesperados, corpos violentamente abrindo caminho no meio de todo tipo de ser humano. Uma tentativa de fuga tumultuada e sem rumo, onde priorizava-se o inconsequente instinto de sobrevivência, simplesmente inutilizável.

De alguma forma, me senti imersa em tranquilidade e em pensamentos nostálgicos anestesiantes. Facilmente ultrapassei aquele mar de arrependimentos, incredualidade e pregações místicas, e foi com prazer que avistei o pico do Skydive, com seu seus gramados verde oliva aveludados enchendo meus olhos de sorrisos.

[ O Skydive tinha sempre sido meu lugar preferido. Defronte para o oceano e beirando o universo no céu acima, o ar no pico exalava um cheiro de liberdade e vida marinha. Com exceção dos dias festivos oficiais e do intervalo nas universidades – que enchiam as sombras das árvores do pico com pessoas barulhentas, copos descartáveis e pontas de cigarro mal apagadas – era ali na beira do precipício mais alto e mais aconchegante da cidade que eu realmente me sentia completamente em paz. ]

Já era possível observar a concentração de luz pulsando no horizonte, em parte mergulhada na água azul. Mas era impossível deixar de me incomodar com a média aglomeração de weirdos vestidos como alienígenas, pecadores prostrados na grama com as mãos erguidas em redenção, curiosos, conformados e esperançosos.

Enquanto eu observava atenciosamente as mudanças de cor e o significável crescimento daquela luz pulsante, dedos macios seguraram
firmemente a minha mão. [ Estava ali do meu lado uma das poucas pessoas com quem eu gostaria de compartilhar aquele momento ]

No horizonte oposto o céu apagava os últimos rastros do sol. A energia daquela “coisa” irreconhecível alguns quilômetros à frente começava a formigar na pele do meu rosto. Eu meio que previ: por dois ou três segundos aquela bola incandescente de ondas coloridas se apagou, nos segundos seguintes o ar e o chão tremeram e juro que cheguei a ouvir um assobio grave, profundo e metálico.

Me lembro de não ouvir mais grito algum, nenhum clamor dramático angustiado. Ninguém se movia.

Lembro de sentir aquilo tudo dentro de mim e de apertar com força a mão ao meu lado. Lembro que aquela bola de luz avançava fervorosamente pelo mar em nossa direção, agitando as águas antes calmas, enquanto eu fechava os olhos e tentava trazer à mente alguma música épica. Acho que uma lágrima chegou a percorrer minha face, mas do segundo seguinte não me recordo mais.

light explosion