do peso e da leveza

30 set

Os raios do sol adentravam desautorizadamente o meu quarto quando senti (e ouvi) aquele zumbido diabólico em cima da mesa, ou na minha cama. Arrancada de um sono breve e precioso, condenando a luz do dia pela sua existência, desliguei o celular e me reacomodei entre travesseiros. Mais meia horinha, só.

Lá se foi meia hora, quarenta minutos, cinqüenta, uma hora e dez, e vinte, e trinta. Finalmente estou atrasada! Me arrasto em direção à vida, tão urgente mas que poderia esperar um pouquinho. Um insuficiente e pouco nutritivo copo de leite e chocolate me acompanhará por longas horas, enquanto corro lentamente contra o tempo, junto pertences e piso na rua.

Então o dia é coreografado: sol quente, ônibus atrasado, coisas demais em braços de menos, muitas pessoas, sacolejos intermináveis. Não preciso chegar na faculdade para descobrir que “a aula vai terminar em 10 minutos”. Aquele copo de leite parece ter sido ontem; com um incômodo no estômago sigo para outra aula. Durmo com os olhos abertos, devaneio sobre o futuro, o fim dos tempos, a tensão no Afeganistão, o preço de uma passagem aleatória para a Tailândia, o almoço na minha casa que eu não comerei, os livros que preciso ler, o sono que estou sentindo – a minha cama…

A sensação agradável de um banho já não me acompanha mais: foi substituída por um cheiro empoeirado, metálico e grudado de suor. Me impressiono com a quantidade de pessoas que pode se apertar num ônibus. Mais sacolejos.

Sorrisos no trabalho, sento à minha mesa. Queria deitar sobre ela e dormir bem uns 40 minutos, mas o telefone acaba de tocar. “Amark Marianne, boa tarde”. Atenderei novecentas e setenta e cinco ligações nas próximas horas e o risco de alguém querer falar diretamente comigo é de otimizados 3%.

Há cinco telefones e outros tantos celulares na minha área. Algumas vezes todos gostam de tocar ao mesmo tempo, o que me deixa com uma incontrolável vontade de atirar num deles ou tirá-los do gancho. Conto as horas, estrebuchando de fome e dor nas costas. A cada toque de telefone eu salto na cadeira, violentada.

Boa noite, até amanhã! (putz). Com sorte pego um ônibus rapidinho.

Dá uma tremenda preguiça trocar de roupa e realizar todo aquele ritual de tortura alongamentos. Requer sempre mais. Me deixa sem fôlego, dobrada ao meio com uma mão nas costas. Me faz grunhir quando erro e transcender quando acerto.

Não tem jeito: a cada démi plié e port de bras, grands battements e rétirés, eu esqueço dores, problemas, brigas e preocupações, fome, sono, o que será das próximas horas ou de amanhã, provas não estudadas, pendências e sofrimentos. Só existe eu, meus movimentos, o momento, a música e a dança.

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2 Respostas to “do peso e da leveza”

  1. Madjid setembro 30, 2009 às 10:24 pm #

    linda!

  2. Michel Oliveira outubro 6, 2009 às 7:11 pm #

    Sinto que cada dia tenho perdido minha leveza. Estou me afundando dentro de mim por causa dos pesos carregados. Tenho tentado não perder a flexibilidade, mas tem siso em vão. Dançar um dia? Quem sabe.

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