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If today were Friday

25 nov

Eu assistiria ao pôr do sol em cima de algum prédio;
Faria amizade com desconhecidos;
Jogaria tinta colorida nas paredes do quarto;
Compraria algum vinho francês, camembert e truta salmonada para comer sozinha, sem me preocupar em ficar sem dinheiro;
Alugaria 10 filmes para assistir de uma só vez;
Adotaria um filhote abandonado;
Viajaria para um país aleatório do mundo;
Pintaria o cabelo de azul;
Enviaria cartas para pessoas que não me conhecem;
Dançaria ballet para motoristas no sinal vermelho;
Me vestiria de Darth Vader para ir trabalhar.

 

 

Atom Heart Mother

3 set

A lembrança é meio vaga. Naquele momento, tive a impressão de que todas as pessoas do mundo corriam para o mesmo lugar. E para vários lugares.

Eu só conseguia enxergar vultos deslocando-se apressadamente, gritos, lamentos e orações desesperados, corpos violentamente abrindo caminho no meio de todo tipo de ser humano. Uma tentativa de fuga tumultuada e sem rumo, onde priorizava-se o inconsequente instinto de sobrevivência, simplesmente inutilizável.

De alguma forma, me senti imersa em tranquilidade e em pensamentos nostálgicos anestesiantes. Facilmente ultrapassei aquele mar de arrependimentos, incredualidade e pregações místicas, e foi com prazer que avistei o pico do Skydive, com seu seus gramados verde oliva aveludados enchendo meus olhos de sorrisos.

[ O Skydive tinha sempre sido meu lugar preferido. Defronte para o oceano e beirando o universo no céu acima, o ar no pico exalava um cheiro de liberdade e vida marinha. Com exceção dos dias festivos oficiais e do intervalo nas universidades – que enchiam as sombras das árvores do pico com pessoas barulhentas, copos descartáveis e pontas de cigarro mal apagadas – era ali na beira do precipício mais alto e mais aconchegante da cidade que eu realmente me sentia completamente em paz. ]

Já era possível observar a concentração de luz pulsando no horizonte, em parte mergulhada na água azul. Mas era impossível deixar de me incomodar com a média aglomeração de weirdos vestidos como alienígenas, pecadores prostrados na grama com as mãos erguidas em redenção, curiosos, conformados e esperançosos.

Enquanto eu observava atenciosamente as mudanças de cor e o significável crescimento daquela luz pulsante, dedos macios seguraram
firmemente a minha mão. [ Estava ali do meu lado uma das poucas pessoas com quem eu gostaria de compartilhar aquele momento ]

No horizonte oposto o céu apagava os últimos rastros do sol. A energia daquela “coisa” irreconhecível alguns quilômetros à frente começava a formigar na pele do meu rosto. Eu meio que previ: por dois ou três segundos aquela bola incandescente de ondas coloridas se apagou, nos segundos seguintes o ar e o chão tremeram e juro que cheguei a ouvir um assobio grave, profundo e metálico.

Me lembro de não ouvir mais grito algum, nenhum clamor dramático angustiado. Ninguém se movia.

Lembro de sentir aquilo tudo dentro de mim e de apertar com força a mão ao meu lado. Lembro que aquela bola de luz avançava fervorosamente pelo mar em nossa direção, agitando as águas antes calmas, enquanto eu fechava os olhos e tentava trazer à mente alguma música épica. Acho que uma lágrima chegou a percorrer minha face, mas do segundo seguinte não me recordo mais.

light explosion

3 set

A chuva respingava no vidro que refletia, do outro lado, um olhar atento que folheava as páginas amareladas de um livro francês. Café fumegava à frente dela; o ar vibrava ecoando jazz. Ele chega apressado e senta-se na cadeira do lado oposto da mesa; água escorria no seu rosto e pingava na toalha azul.

Ela levantou os olhos, inclinou a cabeça e desenhou um sorriso no canto da boca.