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25 fev

“acordei essa noite sem fôlego e sem norte, perdida na escuridão dos meus sonhos e na desorientação da vida vazia que preenche meus dias. Senti meu coração pulsando descontroladamente em algum lugar dentro de mim, esforçando-se para ser arrancado do meu peito, expelido pela minha boca e pelos meus poros. E cambaleante levantei-me para percorrer o silêncio fantasmagórico daqueles cômodos frios e solitários, sombra de antigas alegrias enterradas no passado. O copo de vinho guardado e velho tremia violentamente em minhas mãos, enquanto eu escorregava pela parede e caía esquálida no chão gelado. As noites de insônia transformavam minha existência num conjunto de experiências insignificantes, desimportantes e invisíveis. Em algum lugar distante ouvi o copo espatifando-se no chão. Minha camiseta branca coberta de sangue tinto e úmido. Com espasmos contínuos chorei toda a minha dor e desespero, minha saudade angustiante a me matar diariamente. Coberta de lágrimas levantei-me do chão – não sem certa dificuldade – tropecei até a porta e saí para o vento gélido da madrugada silenciosa. Corri para o breu, a esperança fortalecendo cada passo, almejando encontrar os braços dele em alguma esquina, qualquer bar ou até mesmo no metrô. Ele estava perdido, mas em algum canto do mundo, e eu não descansaria até encontrá-lo”.

Atom Heart Mother

3 set

A lembrança é meio vaga. Naquele momento, tive a impressão de que todas as pessoas do mundo corriam para o mesmo lugar. E para vários lugares.

Eu só conseguia enxergar vultos deslocando-se apressadamente, gritos, lamentos e orações desesperados, corpos violentamente abrindo caminho no meio de todo tipo de ser humano. Uma tentativa de fuga tumultuada e sem rumo, onde priorizava-se o inconsequente instinto de sobrevivência, simplesmente inutilizável.

De alguma forma, me senti imersa em tranquilidade e em pensamentos nostálgicos anestesiantes. Facilmente ultrapassei aquele mar de arrependimentos, incredualidade e pregações místicas, e foi com prazer que avistei o pico do Skydive, com seu seus gramados verde oliva aveludados enchendo meus olhos de sorrisos.

[ O Skydive tinha sempre sido meu lugar preferido. Defronte para o oceano e beirando o universo no céu acima, o ar no pico exalava um cheiro de liberdade e vida marinha. Com exceção dos dias festivos oficiais e do intervalo nas universidades – que enchiam as sombras das árvores do pico com pessoas barulhentas, copos descartáveis e pontas de cigarro mal apagadas – era ali na beira do precipício mais alto e mais aconchegante da cidade que eu realmente me sentia completamente em paz. ]

Já era possível observar a concentração de luz pulsando no horizonte, em parte mergulhada na água azul. Mas era impossível deixar de me incomodar com a média aglomeração de weirdos vestidos como alienígenas, pecadores prostrados na grama com as mãos erguidas em redenção, curiosos, conformados e esperançosos.

Enquanto eu observava atenciosamente as mudanças de cor e o significável crescimento daquela luz pulsante, dedos macios seguraram
firmemente a minha mão. [ Estava ali do meu lado uma das poucas pessoas com quem eu gostaria de compartilhar aquele momento ]

No horizonte oposto o céu apagava os últimos rastros do sol. A energia daquela “coisa” irreconhecível alguns quilômetros à frente começava a formigar na pele do meu rosto. Eu meio que previ: por dois ou três segundos aquela bola incandescente de ondas coloridas se apagou, nos segundos seguintes o ar e o chão tremeram e juro que cheguei a ouvir um assobio grave, profundo e metálico.

Me lembro de não ouvir mais grito algum, nenhum clamor dramático angustiado. Ninguém se movia.

Lembro de sentir aquilo tudo dentro de mim e de apertar com força a mão ao meu lado. Lembro que aquela bola de luz avançava fervorosamente pelo mar em nossa direção, agitando as águas antes calmas, enquanto eu fechava os olhos e tentava trazer à mente alguma música épica. Acho que uma lágrima chegou a percorrer minha face, mas do segundo seguinte não me recordo mais.

light explosion

la maladie la plus meurtrière

2 mar

neve.
estou aqui no topo do mundo e não enxergo nada. estou aqui no fundo de um funil monocromático e entediante. Esse ar tão frio faz minhas entranhas arderem, e só assim sinto a vida dentro de mim. Mas a vida não é entediante.
Afundo alguns centímetros no chão glaçado… meus olhos inexpressivos, antes tão atentos a qualquer simplório ou sórdido detalhe, escorregam pela desolação, através de um tão sem-graça olhar.

As horas em que eu refletia intensamente eram sempre às cinco e cinqüenta e três da tarde, sempre sentada em algum banco puído de ônibus, a cabeça encostada displicentemente na janela suja e sacolejante. O pôr-do-sol. As multi cores no céu e pássaros brancos. Rostos e trânsito e luzes e movimento e barulhos. Podia ouvir a conversa alheia sem nem precisar de desculpa. A vida começava ali, às cinco e cinqüenta e três da tarde.

Na verdade, a vida é um enigma. Mas nós nos acostumamos a esse enigma quando crescemos. Até que não nos acontece mais nada enigmático. O mundo se torna constante e previsível, e aí precisamos nos aprofundar inteiramente em nós mesmos para ver e vivenciar o mundo como mistério. O mundo, o mundo vira um hábito. Se começar a acontecer um milagre após o outro, ao final só poderemos estar indiferentes. Até que chega o dia em que não vemos mais que existe um mundo.

Aqui no topo do mundo é tudo muito branco. Muito branco e esse tudo não é nada; não há nada por aqui. Só branco. O mundo nem é tão plausível assim. É só moléculas. Microscópicas coisas sem vida. Na verdade, “mundo” não é nada mais do que a denominação para o espectro que nos rodeia. Vivemos nele e nem sabemos de onde ele veio. Na verdade, o mundo somos nós. E não sabemos de onde viemos. Despontamos do nada. A única coisa  que torna o mundo mais plausível do que um conto de fadas é que ele simplesmente existe. Simplesmente.

Em todos os anos que desde então se passaram eu nunca mais havia pensado nisso. Estava ocupada demais em viver. Aliás, pensar nisso é como adquirir uma doença mortal. Se desenvolve cada vez mais profundamente e dela não há como se libertar. Aí então você definha, se contorce em espasmos epilépticos. E suas moléculas sem vida retornam ao nada de onde viemos. Complexo. Vou tentar somente viver. Sem pensar. Pensar é como adquirir uma doença mortal.

 


Aqui do topo do mundo escorrem lágrimas de deslumbramento. Acho que essas lágrimas são minhas, mas elas estão congeladas dentro de mim.

9 jan

Estou sozinho no escuro. Embarcado em redemoinhos pesados que naufragam minha consciência. Tateio pelo copo de café frio e amargo que acumula poeira no chão, ao lado do meu leito. Há vapor, angústia e cheiros fortes perfurando meus pulmões. O corpo dela sua, enrolado nos meus lençóis brancos e levemente perfumados.

Sinto uma vontade remota de chorar.
Sinto uma vontade remota de jogá-la escadas abaixo.

Estou sufocado e impaciente, comprimido por uma vida vazia e cinza; sinto meu peito se sacudir em espasmos que se tornam cada vez mais violentos e meu rosto se contorce em meio à dor e às lágrimas. De repente estou gritando meu desespero: ela desperta aterrorizada, tropeça pelo quarto recolhendo suas roupas espalhadas e foge para longe, deixando-me não tão desconfortavelmente a sós com a minha loucura.

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Durante a ausência do sol.

7 maio

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Resquício algum sobrou das flores primaveris, agora soterradas pela neve que se acumula lá fora.
Seus pensamentos encolhem-se junto ao peitoril da janela, debulhando-se em profundos e confusos lamentos, todos vermelhos.
Ela caminha sob a grossa chuva de outono, se afogando em lágrimas alheias, observando um ou outro transeunte, invisíveis a olhos nus, os dois, ou quatro, ou sete, se assim fosse para ser (mas que talvez nunca o será), separados por um muro de porquês.
Um muro desses tais pensamentos, que observam densos flocos de melancolia e de algumas coisas que nos fazem passar noites em claro, com lágrimas nos olhos e nós apertados em cada pedaço do nosso corpo maltratado, caírem vazios, formando uma canção de adeus.
Os lamentos, vermelhos, por sua vez, refletem-se nos poucos espelhos que restaram naquela casa abandonada. Tornaram-se figuras esguias, porém apaixonantemente belas, imersas em suas redomas particulares, palpitando, não com palavras, mas somente e completamente com seu ser.
Com os pés dilacerados pelos cacos de seus espelhos (que ela mesma estilhaçara), caminhou pelo jardim coberto de branco e de sua infelicidade. Deixou seu corpo nu cair na neve, e ali jazeria, sangrando, até sua vida se esvair.