Arquivo | melancholy RSS feed for this section
23 ago

Je t’oublierai.

Anúncios
9 out

sweet.
cherry tree
blue

hoje acordei com vontade de ser outra pessoa, fazendo outras coisas, em outro lugar…

la maladie la plus meurtrière

2 mar

neve.
estou aqui no topo do mundo e não enxergo nada. estou aqui no fundo de um funil monocromático e entediante. Esse ar tão frio faz minhas entranhas arderem, e só assim sinto a vida dentro de mim. Mas a vida não é entediante.
Afundo alguns centímetros no chão glaçado… meus olhos inexpressivos, antes tão atentos a qualquer simplório ou sórdido detalhe, escorregam pela desolação, através de um tão sem-graça olhar.

As horas em que eu refletia intensamente eram sempre às cinco e cinqüenta e três da tarde, sempre sentada em algum banco puído de ônibus, a cabeça encostada displicentemente na janela suja e sacolejante. O pôr-do-sol. As multi cores no céu e pássaros brancos. Rostos e trânsito e luzes e movimento e barulhos. Podia ouvir a conversa alheia sem nem precisar de desculpa. A vida começava ali, às cinco e cinqüenta e três da tarde.

Na verdade, a vida é um enigma. Mas nós nos acostumamos a esse enigma quando crescemos. Até que não nos acontece mais nada enigmático. O mundo se torna constante e previsível, e aí precisamos nos aprofundar inteiramente em nós mesmos para ver e vivenciar o mundo como mistério. O mundo, o mundo vira um hábito. Se começar a acontecer um milagre após o outro, ao final só poderemos estar indiferentes. Até que chega o dia em que não vemos mais que existe um mundo.

Aqui no topo do mundo é tudo muito branco. Muito branco e esse tudo não é nada; não há nada por aqui. Só branco. O mundo nem é tão plausível assim. É só moléculas. Microscópicas coisas sem vida. Na verdade, “mundo” não é nada mais do que a denominação para o espectro que nos rodeia. Vivemos nele e nem sabemos de onde ele veio. Na verdade, o mundo somos nós. E não sabemos de onde viemos. Despontamos do nada. A única coisa  que torna o mundo mais plausível do que um conto de fadas é que ele simplesmente existe. Simplesmente.

Em todos os anos que desde então se passaram eu nunca mais havia pensado nisso. Estava ocupada demais em viver. Aliás, pensar nisso é como adquirir uma doença mortal. Se desenvolve cada vez mais profundamente e dela não há como se libertar. Aí então você definha, se contorce em espasmos epilépticos. E suas moléculas sem vida retornam ao nada de onde viemos. Complexo. Vou tentar somente viver. Sem pensar. Pensar é como adquirir uma doença mortal.

 


Aqui do topo do mundo escorrem lágrimas de deslumbramento. Acho que essas lágrimas são minhas, mas elas estão congeladas dentro de mim.

9 jan

Estou sozinho no escuro. Embarcado em redemoinhos pesados que naufragam minha consciência. Tateio pelo copo de café frio e amargo que acumula poeira no chão, ao lado do meu leito. Há vapor, angústia e cheiros fortes perfurando meus pulmões. O corpo dela sua, enrolado nos meus lençóis brancos e levemente perfumados.

Sinto uma vontade remota de chorar.
Sinto uma vontade remota de jogá-la escadas abaixo.

Estou sufocado e impaciente, comprimido por uma vida vazia e cinza; sinto meu peito se sacudir em espasmos que se tornam cada vez mais violentos e meu rosto se contorce em meio à dor e às lágrimas. De repente estou gritando meu desespero: ela desperta aterrorizada, tropeça pelo quarto recolhendo suas roupas espalhadas e foge para longe, deixando-me não tão desconfortavelmente a sós com a minha loucura.

.

12 set

engraçado como se acabam.
como se nasce e como se deixa cair num abismo, de forma vergonhosa, completamente desgastado.
e se os dedos são furados e não se tem direção pra apontar,
espere na chuva, espere no escuro. Nu, mas protegido por véus, os mesmos que cobrem o corpo lá fora na neve, se a neve chegar.

17.08.2006

Durante a ausência do sol.

7 maio

.

Resquício algum sobrou das flores primaveris, agora soterradas pela neve que se acumula lá fora.
Seus pensamentos encolhem-se junto ao peitoril da janela, debulhando-se em profundos e confusos lamentos, todos vermelhos.
Ela caminha sob a grossa chuva de outono, se afogando em lágrimas alheias, observando um ou outro transeunte, invisíveis a olhos nus, os dois, ou quatro, ou sete, se assim fosse para ser (mas que talvez nunca o será), separados por um muro de porquês.
Um muro desses tais pensamentos, que observam densos flocos de melancolia e de algumas coisas que nos fazem passar noites em claro, com lágrimas nos olhos e nós apertados em cada pedaço do nosso corpo maltratado, caírem vazios, formando uma canção de adeus.
Os lamentos, vermelhos, por sua vez, refletem-se nos poucos espelhos que restaram naquela casa abandonada. Tornaram-se figuras esguias, porém apaixonantemente belas, imersas em suas redomas particulares, palpitando, não com palavras, mas somente e completamente com seu ser.
Com os pés dilacerados pelos cacos de seus espelhos (que ela mesma estilhaçara), caminhou pelo jardim coberto de branco e de sua infelicidade. Deixou seu corpo nu cair na neve, e ali jazeria, sangrando, até sua vida se esvair.