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20 nov

Pelos caminhos que ando
um dia vai ser
só não sei quando.

4 set

“As pessoas vivem suas vidas atadas, presas, apegadas ao que elas traduzem, aceitam como ‘correto’ e ‘verdadeiro’. Todo ser humando confia e está preso ao seu conhecimento e experiência de vida. E assim definem e chamam de realidade. Mas o que de fato significa ‘correto’ e ‘verdade’?

São apenas conceitos vagos, subjetivos e incertos… a realidade das pessoas pode não passar de uma miragem, de uma ilusão. Podemos considerar então que todas são simplesmente ingênuas por viverem em seu próprio mundo, moldadas, amarradas e cegas por suas próprias crenças”.

13 maio

“é preciso encontrar o que se perdeu no tempo, alcançar a voz dos ventos. entregar-se ao que se acredita e lá tocar a música mais bonita, navegar de encontro ao sol e aprender na vida a desatar os nós”.

Como Vincent me conheceu

30 abr

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Garoava enquanto eu voltava para casa naquela noite. Depois da estação de metrô tão cheia de pernas, as ruazinhas solitárias e fracamente iluminadas me deixavam melancólica e pensativa. O toc-toc dos meus passos ecoava nas paredes antigas dos edifícios à minha volta, parando automaticamente em frente ao número 58.

Meu pai apelidou o apartamento de “tenda árabe”. Creio ter sido por causa dos tecidos indianos pendurados no teto da sala, da coleção de elefantinhos em cima de uma prateleira, espelhos de todos os tamanhos disputando o espaço das paredes com fotos, desenhos e cartas, tapetes desparelhos cobrindo o assoalho e ar impregnado de incenso de jasmim – minha mãe sempre insistia em dizer que eu respirava veneno.

Liguei o rádio e sentei num almofadão em frente à janela, com um pote de palmito nas mãos. A vista era privilegiada: colado ao meu nariz erguia-se um prédio de muitos andares e muitos apartamentos. Era ótimo ficar ali observando todos os tipos imagináveis de seres humanos; muitas vezes eu até captava conversas – ou fragmentos delas – brigas, gritos, choros e, vez ou outra, barulhos estranhos.

Um rapaz me chamou a atenção. Segurava uma taça de qualquer coisa, permanecia em pé no meio da sala e só pude vê-lo por que alguns fachos de luz solitários vindos da rua ousavam salpicar o interior daquela janela no décimo andar: todos os outros aposentos estavam imersos no breu. Me senti assistindo a um filme de suspense, enquando ele ia e vinha pelo cômodo, sempre tateando as paredes e agindo de uma forma um pouquinho suspeita.

O filme acabou se tornando entediante, sem iluminação não tinha graça alguma observar aquele cara.

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Toc, toc, toc, toc. O ar queimava a minha garganta enquanto eu voltava para casa em alguma outra noite, tentando enfiar as mãos o mais fundo possível nos bolsos do casaco. Virei uma esquina e foi a primeira coisa que vi: aquele cara andando e tateando as paredes, do outro lado da rua.

Pensei em voltar por outro caminho, morrendo de medo de um psicopata fatiador de pessoas. Aparentemente ele não tinha me percebido, então acelerei os passos no chão molhado. Depois disso foi tudo muito rápido.

Escorreguei, gritei e caí de costas na calçada com um baque surdo. Minha cabeça bateu forte no chão e, enquanto eu ouvia gritos de “O que houve?” e “Você está bem?”, visões de sequestro e diferentes métodos de tortura passavam pela minha mente. Eu não conseguia respirar, nem levantar e sair correndo, quando pés tropeçaram em mim e duas mãos me ajudaram a levantar.

Ele provavelmente tinha a minha idade, ou era uns dois, três anos mais velho. Ao contrário do homem esguio e estranho que eu imaginara, o rapaz era bonito e gentil, falava suavemente e, enquanto perguntava o que tinha acontecido ou se eu estava machucada, reparei que seus olhos azuis não olhavam diretamente para mim, mas fixamente para algum ponto às minhas costas.

Ele me acompanhou até a porta do meu prédio, exatamente oposto ao prédio dele. Aquele olhar fixo – ora no meu braço, ora em algo invisível atrás de mim – me incomodava. Conversamos por poucos minutos antes de nos despedirmos.

Consegui ouvir, pouco antes da porta de entrada fechar:

– Me chamo Vincent.

E, assistindo através do vidro embaçado do saguão a sua travessia irregular e descompassada até a porta do outro lado da rua, eu finalmente percebi que ele era cego.

radioheadin Rio

19 mar

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2 out

– Ich möchte dich nicht, sondern weil ich möchte dich.

Nur ich sterbe in dieser Geschichte, und ich werde sterben von der Liebe. Weil ich möchte dich, Liebe von Blut und Feuer.

Catador de sonhos

7 ago

O sol declina no céu e projeta no asfalto quente a sombra de uma figura esguia. Gotas de suor escorrem insistentemente num rosto marcado pela dureza e cansaço. As costas ossudas são encurvadas e as mãos ásperas e calejadas arrastam consigo uma enorme estrutura de madeira; é mais um fim de dia para alguém que recolhe o seu sustento nas ruas.

Aurélio tem os olhos atentos: aqui e ali ele encontra pedaços de papelão, latas de alumínio, algumas garrafas de vidro. Na carroça tem até banco de plástico e carcaça de televisão – os troféus do dia. E se tiver sorte, ele recolhe, jogado em algum mato, um carrinho quebrado qualquer para presentear um dos quatro filhos. “Anderson, Vitor, Anakelly e Laura, essa aqui”, diz ele, tirando uma menina do meio de caixas de papelão amassadas. “Eu a trago comigo muitas vezes, pra não dar trabalho em casa”.

Segurando a criança no colo, o homem de feições duras viaja doze anos no tempo. Antes de se tornar catador, Aurélio Santos Gomes realizava pequenos reparos em encanamentos e serviços de pedreiro. Nos três anos seguintes houve pouquíssima oferta de clientes, deixando-o praticamente desempregado e dependente da mulher, Inês, que fazia e vendia doces e salgados.

Com o nascimento de Vitor e Anderson – com três anos na época – para criar, Inês deixou seu negócio de lado e passou a dedicar-se à casa e aos filhos. Aurélio, então, construiu sua carroça e passou a acordar às cinco da manhã para percorrer as ruas da cidade. Alguns anos depois Laura nascia, e há apenas 10 meses Anakelly juntou-se à família.

Lelinho, como é chamado pela esposa, vê dia após dia passar sem mudanças. “Recolho o material, estoco lá em casa em uns sacos e vendo. Todo dia é sempre igual. Acordo cedo, antes de todo mundo, pego minha carroça e saio pelas ruas. Muitas vezes só chego em casa depois do anoitecer. Mas, pelo menos, não tem nenhum lugar que eu não conheça nessa cidade, andei por tudo”, comenta, aparentemente orgulhoso.

Ele senta na calçada com a filha ao lado e prossegue: “O que é muito ruim é o preconceito. As pessoas atravessam a rua para não cruzarem comigo, sentem nojo ao me ver revirando latas e sacolas de lixo. Eu não tenho nojo, é o meu trabalho, o meu sustento. Engraçado né, os outros que jogam as coisas deles fora e eu não tenho vergonha nem nojo de ir lá e pegar. Tem gente que me chama de gari, de catador de lixo… O catador recolhe materiais recicláveis, aquilo que pode ser reaproveitado. O lixo é o lixo. Não é a mesma coisa!”.

Sem maiores perspectivas de vida, o que mais lhe agrada são as raras vezes em que dorme até um pouco mais tarde e as partidas de futebol assistidas com os amigos em algum bar. “É a vida, sabe. Tem que levar assim, devagar… não planejo muita coisa pro futuro não, até lá meu barraquinho pode ter desmoronado, pode acontecer alguma coisa comigo… Eu penso mais nas crianças, na formação delas. A Laurinha, essa eu queria que fosse enfermeira”. O pai dá uma leve sacudida no ombro da filha e seu olhar se torna distante.

Aurélio estudou até o quarto ano do ensino fundamental, e, vendo as reais condições da família, teme que os filhos não concluam os estudos. O primogênito, Anderson, já com 12 anos, foi reprovado duas vezes. Vitor também está na escola, mas às vezes “trabalha” nos sinais de trânsito pedindo dinheiro aos motoristas para ajudar nas despesas domésticas. Inês fica em casa com a pequena Anakelly.

Com a manga da camisa que pende em volta de seu pescoço, o catador enxuga o suor da testa e suspira. Ele olha o movimento de automóveis e pessoas ao redor, e se sente excluído, rejeitado. “É como se eu olhasse através de uma janela. Olhasse algo muito bom, mas muito simples ao mesmo tempo, e que me é negado.”

“Não se pode tocar nessas pessoas, e é por isso que eu acho que não faço parte. Nem nunca farei. Eu nem quero que meus filhos fiquem do outro lado da janela, senão eles se tornariam como essas pessoas aí. Eu quero é que eles não tenham que olhar através dela, como eu olho.”

Ao se levantar ele pega a menina no colo, colocando-a de volta na carroça, no meio dos papelões. As mãos calejadas encontram os puxadores de madeira, num esforço contínuo para movimentar toda a estrutura encardida. A expressão cansada torna a encobrir o rosto do catador e ele continua sua marcha no asfalto quente.